11 anos de evolução da criopreservação de células estaminais

Cedida por: Crioestaminal

Doutora Alexandra Mendes

 

Em 2003 surgiu pela primeira vez o tema da criopreservação de células estaminais em Portugal. Foi pela mão da Crioestaminal que foi introduzido um conceito inovador que visava possibilitar aos pais guardar as células estaminais do cordão umbilical dos seus recém-nascidos. Desde então, milhares de pais optaram pela criopreservação, numa aposta no potencial destas células e na evolução da ciência e da medicina.

Não obstante destes avanços, o valor da criopreservação das células estaminais continua a ser debatido. Muitos pais questionam se devem ou não guardar as células estaminais dos seus filhos e, caso o façam, se isso deve ser feito num banco público ou num privado. Decidimos por isso analisar os progressos alcançados nesta área nos últimos 11 anos.

 

Probabilidade de utilização de células estaminais

Uma das principais questões no campo das células estaminais é a baixa probabilidade de utilização. Segundo um artigo de 1999 só 1 em 20.000 pessoas iria necessitar de um transplante com as próprias células estaminais. Estes números têm sido revistos em alta. Um trabalho publicado em 2008, baseado nas estimativas anuais de transplantes hematopoiéticos efetuados nos EUA, estima que 1 em 400 pessoas irá enfrentar uma doença na qual poderá usar as suas próprias células estaminais hematopoiéticas para fins terapêuticos. Considerando também a possibilidade de utilização de células estaminais de outra pessoa esta probabilidade duplica. Assumindo um universo de 100.000 crianças, o número médio de nascimentos em Portugal nos últimos anos, significa que dessas, 500 vão necessitar, durante a sua vida, de células estaminais hematopoiéticas para fins terapêuticos.

Esta estimativa tem como base a lista de 80 doenças que atualmente podem ser tratadas com células estaminais hematopoiéticas da medula óssea, sangue periférico e sangue do cordão umbilical. No entanto, sendo esta área uma das mais promissoras, muitos investigadores e médicos acreditam que o número de doenças tratáveis pode aumentar significativamente. Ao aumentar o número de doenças tratáveis, a probabilidade de utilização também crescerá.

 

Número de transplantes

Os transplantes com células estaminais são efetuados há várias décadas. Desde a década de 60 que as células estaminais da medula óssea são usadas em transplantes. Duas décadas depois, em 1988, uma equipa liderada pela Dra. Eliane Gluckman, realizou o primeiro transplante com células estaminais do sangue do cordão umbilical. A opção por esta fonte de células foi um grande sucesso, pois salvou a vida a um menino que sofria de anemia de Fanconi, uma doença que, sem a intervenção, teria sido fatal. Este primeiro sucesso levou médicos em todo o mundo a avaliar a possibilidade de usar células do sangue do cordão umbilical para fins de tratamento. No entanto, a utilização das células do sangue só começou a aumentar verdadeiramente na última década. Enquanto nos primeiros 15 anos, entre 1988 e 2003, houve 2.500 transplantes, nos 10 anos seguintes este número aumentou 10 vezes. Verifica-se, assim, um aumento exponencial da utilização do sangue do cordão umbilical, em que 70% de todos os transplantes foram realizados nos últimos 5 anos. Em Portugal, mais de 50 crianças foram transplantadas com células do sangue do cordão umbilical. Num destes transplantes foi utilizada uma amostra guardada num banco privado de criopreservação, possibilitando a cura total de uma imunodeficiência combinada severa. Outras 8 crianças, com células criopreservadas, beneficiaram da participação em terapias de paralisia cerebral em fase experimental na Duke University, nos Estados Unidos da América. As razões apontadas para o aumento da utilização do sangue baseiam-se em dois fatores: primeiro, as vantagens inerentes às células do sangue do cordão umbilical comparando com as da medula óssea, e, segundo, o facto de as células estarem hoje criopreservadas e disponíveis em maior número, algo que não se verificava anteriormente.

Especificamente, as vantagens das células do sangue do cordão são: a sua juventude, o menor risco de rejeição após transplantes e a disponibilidade imediata das células para transplantação. Em alguns países como os Estados Unidos, o sangue do cordão é uma fonte preferida à medula óssea e para transplantes pediátricos é mesmo a fonte mais usada. Em Portugal, a medula óssea continua a ser a fonte de células estaminais mais utilizada, estando em aberto a evolução de células de sangue no médio e longo prazo.

 

Uso das próprias células do sangue umbilical

A maioria dos transplantes que requerem a utilização de células estaminais do próprio acontecem em idade adulta, como é o caso dos linfomas. Tendo em conta que as crianças que criopreservaram as suas células estaminais são ainda muito jovens, é natural que a taxa de utilização seja relativamente baixa. Assim sendo, no que se refere à utilização de amostras de SCU só tinham sido efetuados umas centenas transplantes com células do próprio em todo mundo, até 2009. No entanto, também aqui a tendência é de crescimento.

Apesar de estes números poderem ser considerados baixos, é mais correto avaliar a utilidade das células estaminais do próprio com base nos transplantes das outras fontes que têm a mesma aplicabilidade e estão disponíveis para pessoas de todas as idades. Esses números mostram que há, a nível mundial, mais transplantes com células do próprio do que com células de dadores. Na Europa de acordo com dados disponíveis estima-se que a proporção seja cerca de 60%de transplantes com células do doente e aproximadamente 40% com células de dadores.

 

Em resumo

As dúvidas dos pais acerca da criopreservação são naturais e, pois a necessidade de utilização das células estaminais é difícil de prever. No entanto, o potencial desta área é significativo e o número de doenças passíveis de serem tratadas, por recurso a estas células poderá aumentar muito no médio e longo prazo. A atribuição do prémio Nobel de Medicina em 2012 a dois investigadores da área das células estaminais é mais um sinal claro deste potencial.

Publicado a 20 de outubro de 2014

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