A utilização de células estaminais do próprio

Doutora Teresa Matos

 

Cedida por:  Crioestaminal

Cedida por: Crioestaminal

As terapêuticas à base de células estaminais permitem, atualmente, melhorar a qualidade de vida ou mesmo tratar um elevado número de pessoas em todo o mundo.

O primeiro transplante de células estaminais hematopoiéticas (medula óssea) foi realizado há 45 anos e desde então, com o aumento da investigação e a identificação de novas fontes de células estaminais, a sua utilização tem aumentado significativamente. Num período de 10 anos (entre 1990 e 2010) o número de transplantes anuais na Europa aumentou de 4.200 para mais de 30.000 e, segundo a “Worldwide Network for Blood and Marrow Transplantation”, em dezembro de 2012 atingiu-se o marco de 1 milhão de transplantes hematopoiéticos em todo o mundo.

Os transplantes hematopoiéticos (com medula óssea, sangue periférico ou sangue do cordão umbilical) são divididos em 2 grupos:

  • transplantes alogénicos, nos quais dador e receptor são indivíduos diferentes;
  • transplantes autólogos, em que dador e receptor são a mesma pessoa.

As principais doenças tratadas com células estaminais do próprio são linfomas, perturbações das células plasmáticas e tumores sólidos. Por outro lado, células obtidas a partir de um dador compatível são preferencialmente utilizadas para tratar doenças como leucemias ou doenças genéticas.

A maioria dos transplantes hematopoiéticos realizados com recurso a células estaminais da medula óssea, sangue periférico e sangue do cordão umbilical são autólogos. Na Europa, dos transplantes realizados em 2011, 58% foram autólogos e 42% foram alogénicos. Em Portugal, segundo dados da ASST (Autoridade para os Serviços de Sangue e da Transplantação), em 2011 foram efectuados 461 transplantes hematopoiéticos, em que 71% foram autólogos e 29% alogénicos, seguindo a tendência mundial de um maior número de transplantes autólogos.

Apesar de a maioria dos transplantes hematopoiéticos serem realizados em contexto autólogo, são ainda poucos os casos publicados com sangue do cordão umbilical.

Mas dado o elevado número de transplantes hematopoiéticos autólogos, se existisse sangue criopreservado do cordão umbilical desses pacientes as suas amostras poderiam ser utilizadas, evitando o risco e o desconforto que a recolha de medula óssea ou sangue periférico mobilizado implicam.

Quando comparado com as outras fontes, o sangue do cordão umbilical apresenta a vantagem de que as suas células são mais primitivas e não foram sujeitas a todas as “agressões” que sofremos ao longo da vida, sendo menor o risco de existir alguma contaminação com células já alteradas. Como só em 1992 surgiram os primeiros bancos familiares de sangue do cordão umbilical, grande parte dos indivíduos com amostras armazenadas são ainda muito jovens.

O número crescente de unidades de sangue do cordão umbilical armazenadas em bancos familiares permitiu que outras doenças, para além daquelas  para as quais existe indicação terapêutica para transplante com células estaminais hematopoiéticas, pudessem ser tratadas em contexto experimental, em ensaios clínicos.

Muitas destas são doenças pediátricas com uma incidência considerável, como a paralisia cerebral, o autismo ou a diabetes, entre outras.

Neste contexto, tem-se verificado um aumento da utilização de amostras de células estaminais criopreservadas do próprio que estão a ser testadas em crianças cujos pais guardaram as células do seu sangue do cordão umbilical à nascença, pois a utilização de células autólogas evita os riscos de rejeição e aumenta a segurança e o sucesso destes tratamentos, trazendo por isso vantagens.

A investigação do potencial do sangue do cordão umbilical neste tipo de doenças, que diminuem a qualidade de vida e que têm particular incidência na infância, abre enormes perspetivas à utilização de sangue do cordão umbilical em contexto autólogo.

Publicado a 19 de agosto de 2014

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