Aplicação de Sangue do Cordão Umbilical em Crianças com Paralisia Cerebral

Doutora Carla Cardoso

Cedida por: Crioestaminal

O sangue do cordão umbilical tem atualmente uma importância reconhecida no tratamento de diversas doenças do foro hemato-oncológico. Desde a realização do primeiro transplante com células do sangue do cordão umbilical, em 1988, o interesse por esta fonte de células estaminais tem vindo a aumentar, sendo já mais de 35.000 os transplantes realizados em todo o mundo. Para além de ser uma fonte de células com elevado potencial terapêutico, o sangue do cordão umbilical é facilmente acessível e a sua utilização não suscita quaisquer questões éticas, encontrando-se a sua aplicação clínica a ser testada em diversas áreas da medicina regenerativa fora do contexto hemato-oncológico. A paralisia cerebral é uma das patologias em que, de há uns anos a esta parte, o potencial do sangue do cordão umbilical se encontra em estudo. A hipótese de que a terapia celular com células estaminais do sangue do cordão umbilical possa vir a constituir uma opção terapêutica para o tratamento de doenças do foro neurológico está na base dos ensaios clínicos em curso que visam avaliar o efeito de infusões de sangue do cordão umbilical em crianças com paralisia cerebral e outras lesões neurológicas.
A paralisia cerebral é uma perturbação do controlo da postura e do movimento que resulta de lesão cerebral ocorrida num período precoce do desenvolvimento cerebral. Trata-se da doença neurológica motora mais frequente na idade pediátrica, estimando se que afete cerca de 2 em cada 1.000 bebés, resultando geralmente da falta de oxigenação das células do cérebro. Algumas crianças têm perturbações ligeiras, quase impercetíveis, outras há que são gravemente afetadas. Entre estes dois extremos, há vários graus de incapacidade e as manifestações dependem da localização das lesões e áreas do cérebro afetadas.
Em 2005 foi iniciado um estudo piloto, liderado pela pediatra e investigadora Joanne Kurtzberg, na Universidade de Duke, nos EUA, para investigar a ação das células do sangue do cordão umbilical na reparação de lesões cerebrais. Desde então, várias crianças com paralisia cerebral e traumatismo crânio-encefálico têm vindo a receber transfusões do seu próprio sangue do cordão umbilical (infusões autólogas), em regime experimental. Atualmente estão em curso vários ensaios clínicos, em crianças com paralisia cerebral, que visam testar se a infusão autóloga de sangue do cordão umbilical é capaz de atenuar os sintomas da paralisia cerebral.
O sangue do cordão umbilical contém uma população heterogénea de células progenitoras/estaminais. Para além de células estaminais hematopoiéticas (células que conseguem fazer a regeneração do sistema sanguíneo e imunitário), o sangue do cordão umbilical contém também células estaminais mesenquimais (com capacidade de originarem tipos de células diferentes das hematopoiéticas, sendo ainda capazes de regular a atividade do sistema imunitário), células progenitoras endoteliais (que estão na origem das células constituintes dos vasos sanguíneos) e ainda populações primitivas de células pluripotentes. Admite-se que, em conjunto, estas diferentes populações celulares possam ter um papel complementar na regeneração neural, atuando a vários níveis através de diferentes mecanismos. A hipótese de que as células do sangue do cordão umbilical poderão ter um efeito, direto ou indireto, na regeneração do tecido neural (cerebral) está na base dos testes pré clínicos e ensaios clínicos que atualmente estão em curso. Os resultados promissores dos estudos pré clínicos em modelo animal, demonstrando existir uma ação, ainda que indireta, das células do sangue do cordão umbilical na regeneração neural, forneceram a base experimental para o início dos ensaios clínicos em humanos.
Recentemente, têm sido publicados alguns resultados da aplicação autóloga de células do sangue do cordão umbilical em crianças com paralisia cerebral. Quer através da comunicação social quer de comunicações em encontros científicos e em artigos da especialidade têm sido veiculadas notícias que dão conta de melhorias ao nível motor e de desenvolvimento das crianças que têm participado nestes ensaios, recebendo infusões do seu próprio sangue do cordão umbilical. Aguardam se ainda os resultados dos ensaios clínicos em curso, mas os resultados promissores até agora obtidos dão boas perspetivas de a infusão de células estaminais do sangue do cordão umbilical poder vir a constituir uma opção terapêutica para a paralisia cerebral em crianças.

Publicado a 22 de abril de 2015