Porque é que o meu bebé não pega no peito?

Amamentar pode ser uma das “tarefas” mais bonitas e inatas para a mãe e para o bebé, no entanto os relatos das dificuldades neste processo são muito frequentes.

Um dos principais benefícios da amamentação, e que raramente é alvo de referência, é a sua influência no sistema sensório-motor oral da criança. Ou seja, a amamentação está diretamente relacionada com o desenvolvimento das estruturas da face (ossos e músculos) e da boca (lábios, língua, dentes) e das funções neurovegetativas (respiração, sucção, deglutição e mastigação) associadas a estas. A articulação verbal está dependente da integridade e funcionalidade de todas estas estruturas, estando assim intimamente ligada com a amamentação.

A bibliografia refere unanimemente o peito da mãe como o meio que contribui mais positivamente para o desenvolvimento, promoção e funcionalidade adequada das estruturas orais, pois para além da sua forma anatómica o esforço exercido pelo bebé no peito é significativamente superior ao realizado nas tetinas.

A amamentação depende de muitos fatores externos ao bebé (leite suficiente, posicionamento correto, tipo de mamilo e ausência de fissuras etc.), vastamente listados na bibliografia e aqui na Rede Mãe, mas também de fatores internos, como: presença e adequação dos reflexos orais (busca, sucção, deglutição); coordenação destes com a respiração, isto é da coordenação sucção-respiração-deglutição; assim como das estruturas anatómicas do Recém Nascido (RN).

Os reflexos orais são dos primeiros a desenvolver no feto. Os reflexos de deglutição e sucção surgem à 16ª e 20ª semana de gestação, respetivamente, enquanto que o movimento respiratório aparece mais tarde, entre a 25ª e 27ª semana. No entanto, só há registo da coordenação sucção-respiração-deglutição entre a 32ª e 34ª semana.

Quando nasce, o RN tem uma série de características anatómicas específicas e propícias à amamentação, sendo estas:

  • Espaço intra-oral pequeno;
  • Mandíbula (maxilar inferior) pequena e retraída;
  • Língua protruída (para a frente) e proporcionalmente maior que as restantes estruturas, tocando em todos os pontos da boca;
  • Lábios entreabertos e ainda com pouca força;
  • Sucking pads, “almofadas de gordura” (depósito de tecido gorduroso) que fornecem firmeza para as bochechas e favorecem a estabilidade na sucção;
  • Movimento das estruturas em bloco e apenas horizontalmente (direção peito-bebé);

Com um movimento de sucção adequado no peito da mãe, realizado durante os primeiros meses, as estruturas vão-se desenvolvendo, os lábios aumentam a força, há absorção das sucking pads, a mandíbula cresce e aumenta o espaço intra-oral, permitindo movimentos não só horizontais mas também verticais (de cima para baixo), tanto da língua como da mandíbula.

O reflexo de busca e sucção são muito importantes nesta fase.

Quanto à sucção podemos referir dois tipos e dois padrões, variando a frequência, o ritmo e a execução do movimento. No que diz respeito ao tipo, a sucção pode ser:

  • nutritiva – realizada tanto na mama como na tetina quando há presença de leite;
  • não-nutritiva – realizada na ausência de leite, muitas vezes para o conforto do bebé.

Quanto à forma, considera-se:

  • suckling – forma mais primitiva, mais reflexa e inconsciente de sugar e onde a extração do leite apenas ocorre por diferenças de pressão, sem grandes movimentos por parte RN;
  • sucking – sucção mais amadurecida, onde há maior dissociação de movimentos tanto da língua como das restantes estruturas.

A mudança de uma forma para outra ocorre por volta dos 4/6 meses de idade, acompanhada da maturação das estruturas orais do bebé e diretamente relacionada com a amamentação.

Nos bebés prematuros, dado as semanas de gestação necessárias à coordenação sucção-respiração-deglutição, há inúmeros problemas alimentares, necessitando de apoio de técnicos especializados como o Terapeuta a Fala. No entanto, de modo menos significativo, é muito frequente bebés de termo apresentarem dificuldades em pegar no peito devido a imaturidade das estruturas orais (pouca força nos lábios/língua/bochechas), dos reflexos, ou incapacidade de coordenação sucção-respiração-deglutição.

A incapacidade do bebé mamar no peito desencadeia sentimentos menos positivos na mãe como frustração e desilusão, julga-se incapaz até de conseguir alimentar o filho, evitando a hora da mamada e acabando por optar por meios compensatórios à amamentação.

Por vezes tudo que o que está ao alcance da mãe, e depende apenas de si, não é suficiente, pois neste caso é algo que transcende a mesma.

Assim, é importante estar atenta e questionar o que poderá estar na origem da recusa do bebé em pegar na mama…É importante estar atenta!

Neste sentido, a bibliografia refere que bebés com dificuldades na coordenação sucção-respiração-deglutição podem apresentar uma série de sinais de stress, como:  regurgitação, náuseas, soluço, espirro, bocejo, tosse, suspiro, choro, engasgo, “caretas” faciais, retração labial, arqueamento do tronco, extensão dos membros etc. Se tiver dúvidas não hesite em questionar o Pediatra, o Enfermeiro ou o Terapeuta da Fala.

Quando o bebé apresenta esses sinais ou tem dificuldades em pegar na mama, recomenda-se que:

  • Mantenha a calma e crie um ambiente tranquilo. Lembre-se que quanto mais calmo o bebé estiver mais fácil é todo o processo;
  • Deixe o bebé estar bem desperto e com fome, mas não rabugento de “fome”, pois estará mais ativo para a execução de todos os movimentos. Evite sempre alimentá-lo a dormir ou acordá-lo para comer;
  • Com as mãos bem lavadas brinque com o dedo indicador à volta dos lábios, estimulando a procura do alimento (reflexo de busca) – sempre antes de iniciar a amamentação;
  • Tente sempre que o bebé pegue no peito, se não conseguir opte por retirar o seu leite e dar pelo copo ou pelo biberon sempre com tetina ortodôntica, adaptável e regulada;
  • Com o peito vazio, depois de retirar o leite com a bomba, coloque o bebé ao peito. Como foi referido o tipo de sucção é diferente com ou sem leite e o peito é o melhor meio de desenvolvimento;
  • Tente sempre, não desista…e recorde-se que o padrão de sucção muda por volta dos 4/6 meses e que nesta fase poderá voltar/iniciar a amamentação;

Para terminar, a amamentação está dependente da coordenação sucção-respiração-deglutição e das estruturas orais do seu bebé, no entanto estas estão igualmente dependentes da amamentação, pois é através dela que o bebé aprende a controlar mais eficazmente a sucção-respiração-deglutição e desenvolve todas as estruturas que permitem mastigar, engolir, respirar e articular os sons da fala corretamente.

O seu papel é fundamental e imprescindível, por isso por mais difícil que seja, aceite, relaxe e entre nesta “aventura”, por si…mas principalmente pelo seu bebé!

Publicado a 27 de fevereiro de 2013 / Atualizado a 20 de março de 2013

Bervian, J., Fontana, M. & Caus, B (2008). Relação entre amamentação, desenvolvimento motor bucal e hábitos bucais- revisão de literatura. Revista da Faculdade de Odontologia, 13, 76-81.

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