Prematuridade

Com planos frustrados descobríamos, da pior maneira possível, que não nos cabe escolher a data do parto, se vai ser ou não doloroso, ficam para trás as roupinhas bonitas previamente escolhidas, os presentes, os parabéns!

Sou mãe de um prematuro extremo, que nasceu de 26 semanas e 6 dias.
Tudo corria tranquilamente até que fico internada com 25 semanas, pois corria um grande risco de parto pré-tremo, era suposto ficar internada 7 semanas (até as 34 semanas).

O meu internamento foi devido a contrações e perdas de sangue, tudo muito confuso para mim… Entrei em negação total, achei que era tudo um exagero, não chorava, não pensava, entrei noutra realidade.
Após não conseguirem mais controlar o meu estado fiquei 21 horas em trabalho de parto (nem aqui eu percebi o que se iria passar), estava já com anestesia epidural à 1 hora quando tive um descolamento de placenta. Foi um filme de terror o que vivi! Não esquecerei as caras, as vozes e a correria de todos os clínicos a levarem-me para o bloco operatório, cesariana urgente… eram muitos, muitos falavam muito alto, até que me adormeceram…

O Dinis nasceu às 16:12h do dia 28 de março de 2012 com 1140 gramas. Não o vi, não o cheirei, não nada… Acordei com um “mãe o Dinis já nasceu” e um gigante parabéns!

Não percebia nada, não perguntava nada, pouco tempo depois o pai veio ter comigo com uma foto do Dinis e eu fiquei a olhar, apenas disse que eu sabia que aquele hospital o ia salvar (Hospital de Santa Maria), não tinha capacidade para mais, o meu cérebro tinha voado para longe.

Fui para um quarto cheio de mães como os seus recém-nascidos onde se lamentavam da dor ou radiantes obviamente com os seus rebentos,  todas olhavam para mim, enfiava-me em baixo dos lençóis, não queria estar ali… e felizmente fui para um quarto, sem recém-nascidos.

No dia seguinte fui ver, juntamente com o pai, o Dinis… e é indescritível o que se sente quando se entra numa Unidade de Cuidados Intensivos Neonatais. Quando vi o Dinis gelei por dentro, instalou-se em mim um gigante sentimento de culpa, de raiva de mim própria, – como não eu tinha conseguido proteger o meu filho que estava ali ventilado, cheio de máquinas, cheio de apitos? – ele ainda não abria os olhos, fiquei rodeada de enfermeiras que me diziam para lhe tocar, que ele me iria reconhecer, e assim fiz, abri as portinhas da sua nova casa, toquei no meu filho muito ao de leve e chorei chorei chorei… eram facas que me cortavam a alma o peito cheio de dor.

Soube que o meu filho poderia não sobreviver, e por ser rapaz teria ainda menos probabilidades, poderia ficar com n sequelas, também devido à reanimação logo ao nascer, e que seria um dia de cada vez, por vezes 1 hora de cada vez, e que teríamos de acreditar muito nele, mas… um dia de cada vez!

Nesse momento não quis mais saber de parabéns! Parabéns de quê?! Não foi de todo o dia mais feliz da minha vida, foi sim o mais traumático, mais assustador.

O dia da minha alta foi muito penoso, foi perceber que entrei ali com o meu bebé na barriga e agora saía sem nada, saía com um grande vazio, com muitas culpas, não sabia sequer se algum dia ele vinha connosco para casa… e chovia muito, o céu chorava comigo.

Tinha leite e foi a isso que me agarrei e felizmente consegui manter até à alta dele, o que foi muito importante. Os dias foram passado com altos e baixo, um passo em frente, dois atrás, muitos e muitos sustos! Saídas da unidade para ele ser reanimado. Algumas sépsis (infeção geral do organismo), um sopro no coração, uma cirurgia para encerrar o canal arterial e sépsis em pós-operatório, muita dificuldade em respirar sozinho, algumas transfusões de sangue…

Método Canguru

Dinis em canguru (cedida pelos pais do Dinis)

Os colos eram muito poucos mas quando existiam era um momento maravilhoso. Apesar de tudo, o Método Canguru (ter o bebé despido em contacto directo pele com pele) é fantástico, era quase como o ter na barriga com aqueles movimentos suaves.

O primeiro beijinho que lhe pude dar foi com 3 semanas de vida e ele estava com anestesia geral, é tudo estranho e contranatural. O ambiente nos Cuidados Intensivos é muito desgastante e desafiante, temos de perguntar se podemos tocar no bebé, mudar a fralda quando podemos – é das únicas coisas possíveis para nos sentirmos úteis,  ficámos viciados nas máquinas.

Eu não me sentia nada mãe, a que protege e que cuida da sua cria, pois não me era permitido fazer nada, para além de tirar leite. Estivemos sempre ao lado do nosso bebé, tão pequenino, mas já a lutar pela vida, já a lutar por respirar sozinho, ninguém merece passar por isto para sobreviver, é duro demais.

É duro ver que o bebé que ontem estava ao nosso lado no seu castelo de cristal, já não está mais, porque partiu, é pensar em tudo e em nada. Foram 40 dias em Cuidados Intensivos mais 25 em intermédios, 54 deles com respiração assistida.

Aprendi muito. Sou certamente muito melhor mãe, aprendi a dar biberão pois apesar de ter leite o Dinis não tinha força e ficava muito cansado (mesmo com o biberão!).

Dinis

Dinis (cedida pelos pais do Dinis)

Aprendi a manobrar um bebé mínimo numa incubadora, aprendi a dar banhinho… Aprendemos até demais, pois ficamos a saber os riscos do ambiente no exterior, de tudo.

Fiquei apaixonada por bebés prematuros, são de uma garra fascinante e emocionante, lutam tanto.

O Dinis, mesmo no seu castelo de cristal, assim que nós entravamos na sala sentia e as máquinas apitavam. Indescritível!

O dia da alta dele foi o renascer, foi o dia mais feliz, com alguns medos lógicos principalmente quanto à parte respiratória, mas também fomos tão bem ensinados – mas tão bem! – que nos deu uma grande autoconfiança.

E assim foi. Viemos para casa o Dinis já tinha 2080 gramas, num dia lindo de sol, portou-se maravilhosamente bem. Posso dizer que foi um bebé bem comportado, tranquilo, adorava dormir na sua cama e não era de muitos colos.

Hoje o Dinis tem 19 meses e quase 12 kg cresceu maravilhosamente bem, gosta de comer (o que ajuda imenso), é muito bem disposto e feliz com a vida!

Tem sequelas na parte respiratória, e um atraso na motricidade fina e grossa – normal em alguns bebés do mesmo tempo.

Se já passou?! Não…. ainda sonho muito com a Unidade. Por vezes sinto alguns cheiros, não posso ouvir apitos ou ambulâncias. Não consegui ainda fazer o luto da minha gravidez interrompida.

Como já referi adoro bebés prematuros, tenho um respeito gigante pela UCIN daquele hospital em particular, pois salvaram o meu filho, são pessoas fantásticas!

Gostava muito que a sociedade mudasse e não ignorasse  a prematuridade, 1 em casa 10 bebés nascem prematuros no mundo inteiro!! Eles precisam de mais cuidados principalmente no pós-alta, são muitos deles bebés com necessidades diferentes e especiais…

 

Dinis

Dinis (cedida pelos pais do Dinis)

Esta é a história do Dinis, escrita pela sua mamã Carla Rita Santos.

A Carla é membro da Associação de Pais Prematurosuma entidade sem fins lucrativos cuja missão principal é prestar apoio aos pais e familiares de bebés prematuros durante o internamento nos serviços de neonatologia das diversas unidades de saúde e centros hospitalares, bem como acompanhar o desenvolvimento global destas crianças nos primeiros anos de vida.

 

 

 

 

Muito obrigada pela partilha Carla!

Publicado a 14 de novembro de 2013

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