Transplantes de células estaminais

 Doutora Carla Cardoso

 

Cedida por: Crioestaminal

Os transplantes de células estaminais adultas são realizados na prática clínica há mais de 40 anos para o tratamento de doenças como leucemias, linfomas e imunodeficiências, entre outras. Nestas células incluem-se as da medula óssea e do sangue periférico e, mais recentemente, as do sangue do cordão umbilical e os transplantes com estas fontes de células estaminais são designados transplantes hematopoiéticos, pois visam restabelecer as células do sangue e sistema imunitário dos doentes. O recurso a este tipo de transplante é actualmente feito para o tratamento de mais de 80 doenças, que incluem doenças hematológicas, imunológicas e metabólicas. O transplante de células estaminais hematopoiéticas é hoje reconhecido como um procedimento de eficácia comprovada e de tal modo importante na prática clínica que foram já contabilizados mais de 1 milhão de transplantes em todo o mundo. Trata-se de uma terapia essencial para muitos doentes que lutam contra doenças hemato-oncológicas. Em 1968, foi realizado o primeiro transplante bem-sucedido de medula óssea, para o tratamento de uma criança com uma doença do sistema imunitário. No que respeita ao sangue do cordão umbilical, o primeiro transplante com esta fonte de células estaminais foi realizado em 1988, tendo sido usado o sangue do cordão umbilical da irmã da criança que sofria de uma doença do sangue. Desde então já se realizaram mais de 30.000 transplantes em todo o mundo, cerca de 75% dos quais nos últimos seis anos, o que revela a crescente adopção do sangue do cordão umbilical como opção terapêutica. O sucesso deste transplante foi tal que a partir de então se estabeleceram bancos de sangue do cordão umbilical um pouco por todo o mundo.

A probabilidade de transplante hematopoiético ao longo da vida tem conduzido a alguma discussão na opinião pública quanto à utilidade de guardar as células estaminais do cordão umbilical à nascença. O estudo científico mais recente sobre esta temática foi publicado em 2008 e baseia-se nas estimativas anuais dos transplantes hematopoiéticos (sangue do cordão umbilical, medula óssea, ou sangue periférico) efectuados nos EUA, na incidência de doenças que requerem transplante hematopoiético e em dados demográficos dos EUA. Tendo em consideração estes dados, o estudo conclui que a probabilidade de uma pessoa até aos 70 anos vir a necessitar das suas células estaminais para um transplante hematopoiético – transplante autólogo – é de cerca de 1:400 enquanto a probabilidade acumulada de vir a necessitar de um transplante com as suas próprias células ou com células de outra pessoa (por exemplo de um irmão compatível) – transplante alogénico – é de cerca de 1:200. Estudos publicados anteriormente apontam para probabilidades de utilização mais baixas, mas não apresentam cálculos que fundamentem esses números.

Nos últimos anos, as células estaminais hematopoiéticas têm progressivamente vindo a ser usadas noutras doenças fora do contexto hemato-oncológico, no âmbito de ensaios clínicos. Por isso, é expectável que num futuro próximo elas possam vir a constituir uma opção terapêutica para outro tipo de doenças, para além das actualmente tratáveis com este recurso biológico. A este respeito, é de salientar os ensaios clínicos com sangue do cordão umbilical em patologias como a paralisia cerebral, o autismo, a diabetes tipo 1 e a perda auditiva em crianças.

A grande maioria dos transplantes até agora realizados têm utilizado células estaminais hematopoiéticas mas, para além destas, há outras células estaminais com interesse terapêutico. São exemplo disso as células estaminais mesenquimais que se encontram no tecido do cordão umbilical, na medula óssea e no tecido adiposo. Estas células foram alvo de um interesse, por parte da comunidade científica e médica, mais recente do que as células estaminais hematopoiéticas e por essa razão a sua utilização terapêutica não se encontra ainda tão “vulgarizada”. No entanto estas células estão em estudo num elevado número de ensaios clínicos e poderão vir a ser úteis para o tratamento de um leque alargado de doenças.

 

Publicado a 11 de julho de 2014

Retrieved from: Hematologytimes.com

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