Vale a pena guardar as células estaminais do meu segundo filho?

Doutora Teresa Matos

Cedida por: Crioestaminal

Quando chega a segunda gravidez, a maioria dos pais que optou por guardar a amostra de sangue do cordão umbilical (SCU) do primeiro filho, pondera se será necessário criopreservar também a amostra deste segundo bebé.

É importante que os pais tenham presente que a nova amostra de SCU poderá ser útil quer para o próprio quer para um irmão desta criança. Seguem-se alguns exemplos de utilização de SCU entre irmãos:

  • O primeiro transplante de SCU foi realizado em 1988, em França, para tratar uma criança de 5 anos com anemia de Fanconi (uma doença congénita causada por uma deficiência na medula óssea que impede a produção de células sanguíneas normais) com uma amostra de SCU de uma irmã compatível. O sucesso deste transplante foi tal que levou a que se estabelecessem bancos de sangue do cordão umbilical um pouco por todo o mundo.
  • Em Portugal o primeiro transplante com SCU foi realizado em 1994, no IPO de Lisboa, para tratar uma menina de 4 anos com uma Leucemia Mielóide Crónica. Também neste caso se recorreu ao uso de uma amostra de SCU que pertencia a um irmão da criança doente. A utilização de SCU entre irmãos é aquela que tem tido maior aceitação no âmbito das aplicações actuais na área da hemato‑oncologia.

Actualmente a maioria dos transplantes com SCU são realizados em contexto alogénico (dador e paciente são pessoas diferentes), em alguns casos porque o paciente não tem SCU guardado, mas noutros casos porque se trata de uma doença para a qual existe indicação para transplante alogénico. Nestas situações, quando chega a hora de procurar um dador compatível, em primeiro lugar procura-se entre os familiares mais próximos, nomeadamente irmãos (se existirem), pois é nestes que existe maior probabilidade de se encontrar um dador compatível. Para além disso, o transplante de SCU com dador familiar apresenta algumas vantagens sobre o transplante não familiar, incluindo aumento da probabilidade de sobrevivência e menor probabilidade de doença do enxerto contra hospedeiro, uma complicação frequente dos transplantes alogénicos.

Os bancos familiares armazenam amostras de SCU dos recém‑nascidos permitindo às famílias ter uma amostra disponível para uso no próprio (utilização autóloga) ou em familiares compatíveis (utilização alogénica relacionada). Segundo dados do site “Parents Guide for Cord Blood Foundation”, nos EUA são já mais de 1,15 milhões as amostras de SCU criopreservadas em bancos familiares. Destas, muitas foram libertadas para utilização autóloga (grande parte para tratamentos experimentais em doenças tais como diabetes tipo 1 ou paralisia cerebral), mas a maioria foi usada em contexto alogénicos para tratar irmãos com doenças para as quais a terapia com células estaminais é a opção actual.

Em Portugal, a primeira amostra libertada de um banco familiar foi usada para tratar uma criança com uma imunodeficiência combinada severa (doença em que o sistema imunitário se encontra debilitado não conseguindo combater infecções). Foi utilizada a amostra de SCU do irmão mais velho que tinha sido criopreservada. Caso esta amostra não tivesse sido criopreservada, poderia ter-se recorrido às células da medula óssea do irmão. Mas uma vez que existia esta hipótese, e após confirmarem que a amostra tinha todas as condições para ser utilizada, os médicos não hesitaram em utilizá-la, evitando desta forma expor o irmão mais velho (mas ainda pequeno) a um procedimento invasivo e arriscado.

Ao armazenar a amostra de todos os filhos é possível maximizar o potencial de utilização das amostras de SCU entre os irmãos, e desta forma ter mais opções terapêuticas disponíveis em caso de necessidade.

Publicado a 3 de novembro de 2014 / Atualizado a 20 de abril de 2015

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FAQS about finding a donor. Disponível em Bethemach.org

Finding a donor: the search process. Bethematch.org

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